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Entre tradição e inovação: filhos assumem empresas e reinventam negócios da família

TVSD Notícias acompanhou diferentes histórias de empreendedores que, desde infância, acompanham a rotina de pais e familiares até assumirem os respectivos negócios
Entre tradição e inovação: filhos assumem empresas e reinventam negócios da família
(Foto: Arquivo Pessoal/ TV Serra Dourada)

Uma vocação que ultrapassa gerações e é cultivada dentro do núcleo familiar. O que começou com pais ou avós ganhou novos caminhos e é levado adiante por uma nova geração, que busca manter a tradição sem deixar de acompanhar as transformações do mercado. Para esses sucessores, porém, o desafio não é apenas ocupar a cadeira de comando, mas também transformar a forma de vender, se relacionar com os clientes e pensar o negócio.

Em algumas das histórias acompanhadas pelo TVSD Notícias, a rotina dentro de uma empresa já era observada pela nova geração desde a infância, como é o caso do empresário Matheus Fedato, de 31 anos. Ele integra a terceira geração da Doces Nerópolis, empresa que, em 2023, foi reconhecida como patrimônio cultural e imaterial de Goiás.

Empresa Doces Nerópolis (Foto: Arquivo Pessoal)

A história da Doces Nerópolis teve início em 1965, com Humberto Marques Brandão e a esposa, Dulcinea Navas Marques, avós maternos de Matheus. Na época, toda a produção era feita dentro de casa. O avô ficava responsável por distribuir os doces, levando os produtos para fora da residência em um carrinho.

À medida que o comércio foi se ampliando, a família passou a investir em estrutura e equipamentos. O que antes era produzido dentro de casa passou por um processo de profissionalização e, em 1987, a empresa ganhou uma planta industrial com mais de 3,5 mil metros quadrados de área.

Após o falecimento de Humberto, em novembro de 2006, a família continuou o legado deixado por ele. Em 2012, foi inaugurada uma loja de fábrica em Nerópolis e, em 2015, uma filial em Goiânia. Mas onde entra a história de Matheus?

Antes de pensar em assumir o negócio da família, ele partiu para São Paulo para cursar Engenharia Mecânica na Unesp. Logo após se formar, passou por multinacionais como Ambev e Heineken, onde adquiriu o que considera uma de suas principais bagagens: experiência.

Mas foi apenas em 2022 que uma ligação mudou tudo e uniu duas histórias que, até então, seguiam caminhos diferentes.

“Em 2022, recebi uma ligação da minha mãe dizendo que a empresa poderia fechar caso eu não pudesse ou não quisesse olhar para o negócio e assumir a operação. Liguei para o consultor financeiro e perguntei se havia solução. Ele disse que havia, mas que era necessário alguém capaz de conduzir o processo. Em 12 de julho de 2022, entrei na empresa e percebi que aquela era uma relação muito pessoal, porque a empresa estava no fundo do poço”, diz.

Aos 27 anos, ele se viu em uma nova posição: no comando de uma operação com cerca de 28 colaboradores, milhões de reais em dívidas e um faturamento abaixo do esperado.

As experiências nas multinacionais e a vivência adquirida ao longo dos anos, observando a rotina da própria empresa, foram essenciais para evitar que o trabalho construído pela família chegasse ao fim. Na trajetória de Matheus, a transição não foi o principal desafio, mas, sim, a necessidade de reposicionar a marca.

“Obviamente, para um homem de 27 anos assumir uma operação de 58 anos, não era uma tarefa fácil. Havia colaboradores desmotivados e cobradores batendo à porta. Mas tínhamos algo que não nos deixava cair: esperança, trabalho, disciplina, execução e uma marca muito forte”, reforça.

Hoje, em 2026, a Doces Nerópolis passou por uma transformação que Matheus compara a uma “cirurgia da cabeça aos pés”. O processo incluiu mudanças administrativas, na estrutura física e nos processos internos, além da implantação de uma cultura organizacional mais forte.

Em quatro anos, a empresa, que estava à beira da falência, encontrou um novo rumo e passou a se modernizar para acompanhar as transformações do mercado.

“A gente não se livrou nem da metade dos problemas que ainda temos, mas conseguimos negociar as dívidas, ganhar fôlego e nos organizar. Aumentamos o número de canais de venda. Fomos para o digital, entramos em marketplaces, criamos nosso próprio e-commerce e canais automatizados pelo WhatsApp. Também implantamos o WhatsApp Commerce. Conseguimos uma certificação que permitiu levar nossos produtos para fora do estado de Goiás. Hoje, atendemos Tocantins, Belém do Pará, Mato Grosso e Brasília. Com isso, conseguimos aumentar nossa capilaridade. Isso obviamente elevou a complexidade do negócio, mas, consequentemente, também aumentou o faturamento. Foram mudanças que trouxemos para dentro da empresa e que fizeram a diferença”, afirma.

Matheus Fedato, proprietário da empresa Doces Nerópolis. (Foto: Arquivo Pessoal)

A superintendente executiva da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Hélia Gonçalves, explica que, diante da mudança no perfil do consumidor, ferramentas digitais, como as implantadas por Matheus, podem desempenhar um papel importante na rotina das empresas.

“No mercado, nós ainda temos empreendedores que têm esse medo do digital. Mas é importante entender a jornada, o perfil do seu consumidor, aliás, do seu cliente, para entender do que ele precisa e como se adaptar. Às vezes, ele pode começar no digital, fazer uma venda pelo WhatsApp e finalizar a entrega na loja física. Tem que entender o que ele vai trabalhar para facilitar a vida do seu cliente. É isso que os clientes estão buscando. Os consumidores estão buscando comodidade, agilidade e menos tempo”, destaca.

superintendente executiva da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Hélia Gonçalves. (Foto: TV Serra Dourada)

Sucessão gradual

No caso de Jonas José Ferreira Bento, de 24 anos, a sucessão acontece de forma mais gradual. Ele divide com o pai, Elio José Ferreira Junior, o comando da Moda Cirúrgica, empresa voltada à produção de enxoval hospitalar, com confecção de roupas como lençóis, fronhas, conjuntos e capotes cirúrgicos.

A empresa atende clientes nos estados de São Paulo, Amapá, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Tocantins e Pernambuco, além de países da América Latina, chegando a mercados como Argentina e Uruguai.

Desde os 11 anos, Jonas acompanha o pai na empresa. Assim como Matheus, os ensinamentos da infância e a rotina vivenciada no negócio serviram de base para que ele desse continuidade à empresa da família.

“Para mim, foi muito importante crescer acompanhando meu pai. Lembro que, desde os 11 anos, durante minhas férias, ele já me levava para Brasília, um polo com o qual ele tinha muito contato e onde vendia bastante. Desde aquela época, eu o acompanhava. Eu cresci sempre muito nesse meio, e isso me fez assumir responsabilidades desde cedo. Sempre tive a visão de que, se a gente não se movimentar, não tomar a frente e não tiver responsabilidade, nada dá certo na nossa vida. Foi muito importante crescer vendo o cotidiano da nossa empresa. Assumi já tendo essa noção de como tudo aconteceu e de como a empresa cresceu e se estabeleceu”, destaca.

Jonas José Ferreira Bento e Elio José Ferreira Junior. (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes de assumir parte da responsabilidade pela operação, Jonas cursou Direito. Foi durante a faculdade que percebeu que o interesse pelo negócio da família falava mais alto do que o desejo de seguir na advocacia.

“Durante a faculdade, percebi que não queria seguir no ramo da advocacia. Me formei, fiz cursos de análise comportamental, vendas e coaching em vendas para ter mais capacidade e conhecimento e decidi que queria assumir a empresa do meu pai. Essa transição acontece no cotidiano e não de uma hora para outra. A gente acaba assumindo aos poucos. Meu pai ainda tem alguns clientes que acompanha, enquanto eu chego para assumir novas responsabilidades. Não foi algo que aconteceu de uma hora para outra. Ainda sinto que preciso de ajuda para ter domínio de algumas áreas”, destaca.

O acompanhamento ao longo dos anos também foi fundamental para que Jonas ajudasse a ajustar a empresa. Segundo ele, após enfrentar crises e perder clientes, foi necessário reposicionar o negócio e buscar novas formas de atuação, especialmente por meio da tecnologia.

“A empresa passou por uma crise, perdeu clientes e precisou fazer uma mudança, buscar algo novo dentro do mercado. Meu pai já tinha alguns clientes, mas, por conta de problemas econômicos, foi necessário se reinventar. Foi quando implementamos campanhas digitais e começamos a buscar clientes em novos estados. Isso permitiu que alcançássemos coisas que nem imaginávamos.”

Pensando no futuro

Se, para alguns sucessores, a chegada ao comando acontece depois de anos de preparação, para outros, a aproximação com o negócio começa ainda na infância. É assim com as filhas de Bruna Rodrigues Silva, proprietária da Padaria e Pizzaria La’Gio, em Rio Verde, que já participam da rotina da empresa e até dão ideias para novos produtos.

O próprio nome do estabelecimento é uma mistura dos nomes das filhas, Laura e Giovanna, que já vivenciam o dia a dia das duas unidades da padaria e da pizzaria.

Empresária Bruna Silva, com filhas e marido. (Foto: Arquivo Pessoal)

De acordo com Bruna, a mais velha, de 10 anos, inclusive, já demonstra interesse em seguir os passos dos pais quando crescer.

“Elas já têm certa vantagem para o futuro, porque eu levo as duas para conhecer e acompanhar o funcionamento do negócio. Apesar de serem bem pequenas, elas participam e dão ideias. Elas fazem sugestões, falam para fazer isso ou aquilo, dão ideias de pizzas e sugerem sabores. Quando elas falam alguma coisa, a gente até testa”, diz.

A padaria começou em meados de 2020, em plena pandemia. Na época, Bruna e o esposo enfrentavam dificuldades financeiras e decidiram apostar em um negócio com o qual já tinham experiência.

“Eu fui afastada e nós estávamos em casa sem saber o que fazer. Foi então que meu marido teve a ideia de começar a fazer bolos em casa e tentar vender. Começamos em casa durante a pandemia. Fomos fazendo, e as coisas começaram a fluir. Tudo foi se encaixando e, aos poucos, o negócio foi crescendo”, conta.

As histórias de Matheus, Jonas e Bruna mostram que a sucessão familiar não segue um único caminho. Em alguns casos, ela acontece depois de uma crise e exige uma transformação profunda no negócio. Em outros, ocorre de maneira gradual, construída no dia a dia. Há também famílias que já envolvem os filhos desde a infância, preparando o terreno para uma possível continuidade do empreendimento.

Para quem pretende preparar os filhos para assumir o negócio ou iniciar a própria trajetória no empreendedorismo, a CDL mantém programas voltados à capacitação de empresários.

“A CDL tem Escola de Negócios, que pode trazer toda essa jornada de capacitação para esse empreendedor, para que ele possa ter essa visão do outro lado, a visão do empreendedor para ser sustentável. Nós sabemos que hoje as empresas têm fechado, não é muito pelo mercado, mas por falta de gestão. Então, é importante que o empreendedor que vai entrar nesse universo busque capacitação para entender o próprio negócio e não misturar as contas pessoais de casa com as contas da empresa, para que isso não gere um conflito”, explica Hélia.

Além disso, a CDL oferece serviços que podem contribuir para uma gestão mais enxuta da operação.

“Toda a parte de análise de crédito para vender melhor e de gestão da inadimplência também a CDL pode oferecer. Então, são várias soluções que interagem no ecossistema da empresa para que ela possa ser sustentável e gerar resultado. Para além de todos os serviços, a CDL também tem uma atuação institucional, trabalhando em todos os projetos de lei que possam eventualmente impactar negativamente a cadeia produtiva, para que a gente possa viabilizar esse ambiente, trazendo desburocratização e um cenário menos pesado para o empreendedor”, finaliza.

*Matéria feita com o apoio de Jackeline Kojima de Carvalho da Silva, José Eduardo Rodrigues de Souza e Anne Gleicy Correa Amaral

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