As chamadas canetas emagrecedoras ganharam espaço nos últimos anos entre pessoas que buscam perder peso. Apesar da popularização, o uso desses medicamentos exige indicação e acompanhamento médico, principalmente porque alguns efeitos podem estar relacionados não apenas ao remédio, mas também à velocidade com que ocorre o emagrecimento.
Uma revisão sistemática publicada no periódico The BMJ, em julho de 2026, analisou ensaios clínicos envolvendo 99.791 participantes. O trabalho comparou os benefícios e possíveis efeitos adversos de 19 medicamentos utilizados por adultos com sobrepeso ou obesidade e identificou, entre os pontos de atenção, alterações relacionadas à vesícula biliar.
O possível risco já havia sido investigado em uma meta-análise publicada na JAMA Internal Medicine. O estudo avaliou 76 ensaios clínicos, que reuniram 103.371 participantes, e encontrou associação entre medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 e uma maior ocorrência de doenças da vesícula ou das vias biliares.
Segundo a análise, essa associação foi mais evidente entre pessoas que utilizavam os medicamentos com o objetivo de perder peso, especialmente nos tratamentos com doses mais elevadas e por períodos mais longos.
Entre os problemas que podem ocorrer estão a formação de cálculos biliares, conhecida como colelitíase, e a inflamação da vesícula, chamada colecistite. Além do medicamento, a própria perda acelerada de peso pode contribuir para o surgimento das pedras.
O cirurgião-geral e especialista em cirurgia minimamente invasiva e robótica Prof. Dr. Leonardo Emílio da Silva explica que os resultados não significam que todas as pessoas que utilizam esses medicamentos desenvolverão problemas na vesícula.
“Esses dados não significam que todas as pessoas que usam esses medicamentos terão problemas na vesícula. O risco individual depende de vários fatores, como o medicamento e a dose utilizados, o tempo de tratamento, a velocidade da perda de peso e as características de cada paciente”, explica.
Por que o emagrecimento rápido pode afetar a vesícula?
A vesícula biliar tem a função de armazenar a bile, líquido produzido pelo fígado e responsável por auxiliar na digestão das gorduras.
Quando uma pessoa perde peso de maneira muito rápida, duas alterações podem favorecer a formação de cálculos: o aumento da quantidade de colesterol liberada na bile e a diminuição do esvaziamento da vesícula.
Nem sempre as pedras provocam sintomas. Em muitos casos, elas são descobertas durante exames realizados por outros motivos. Quando há manifestações, porém, um dos sinais mais comuns é uma dor intensa na região superior direita ou central do abdômen, principalmente depois das refeições.
A dor também pode se espalhar para as costas ou para o ombro direito e ser acompanhada de náuseas e vômitos.
Quem precisa ter mais atenção?
O risco de desenvolver cálculos biliares não está relacionado exclusivamente ao uso das canetas emagrecedoras. Outros fatores também podem aumentar a possibilidade de ocorrência do problema.
Entre eles estão:
- emagrecimento muito rápido ou dietas extremamente restritivas;
- obesidade;
- histórico familiar de pedras na vesícula;
- diabetes e outras alterações metabólicas;
- períodos prolongados de jejum ou grandes variações de peso;
- histórico pessoal de cálculos biliares.
Por isso, pessoas que apresentam esses fatores devem ter acompanhamento médico durante o processo de emagrecimento. A escolha do medicamento, a dose e a velocidade esperada de perda de peso precisam ser avaliadas individualmente.
Quais sintomas são sinais de alerta?
Dores fortes ou que se repetem na parte superior do abdômen, principalmente após as refeições ou com duração de várias horas, devem ser investigadas.
Febre, calafrios, náuseas e vômitos persistentes também podem indicar inflamação ou alguma complicação.
Alguns sinais exigem ainda mais atenção: pele ou olhos amarelados, urina escura e fezes muito claras podem indicar uma obstrução das vias biliares. Dor intensa acompanhada de febre ou icterícia também deve ser avaliada com urgência.
Apesar disso, o especialista alerta que o tratamento não deve ser interrompido por conta própria.
“Quem utiliza medicamentos para emagrecer não deve interromper o tratamento por conta própria, mas também não deve ignorar uma dor abdominal persistente ou acompanhada de outros sintomas. A avaliação médica permite identificar se há cálculo, inflamação ou outra complicação e definir a conduta mais segura”, afirma Leonardo Emílio.
Como identificar e tratar as pedras?
A investigação começa com a avaliação dos sintomas, histórico do paciente e exame físico. Normalmente, a ultrassonografia abdominal é o primeiro exame de imagem solicitado quando existe suspeita de cálculos na vesícula.
Dependendo do caso, o médico pode solicitar exames de sangue ou outros exames de imagem para verificar a existência de inflamação, obstrução ou pancreatite.
Ter pedras na vesícula não significa necessariamente que o paciente precisará passar por cirurgia. Quando os cálculos não provocam sintomas, em muitos casos é possível apenas acompanhar a situação.
Já diante de crises recorrentes ou complicações, pode ser indicada a colecistectomia, cirurgia para retirada da vesícula biliar.
“O principal cuidado é usar essas medicações com indicação correta e acompanhamento regular. O profissional pode avaliar os fatores de risco, acompanhar a velocidade da perda de peso e investigar rapidamente qualquer sintoma. O objetivo não é causar medo, mas garantir que o tratamento da obesidade seja feito com segurança”, finaliza o especialista.