As chamadas bets, casas de apostas virtuais que permitem que pessoas apostem dinheiro real em eventos esportivos ou jogos de azar online, se popularizaram nas redes sociais nos últimos anos. Dados do Sistema de Gestão de Apostas do Governo Federal apontam que o Brasil registrou quase 10 milhões de CPFs vinculados a apostas em plataformas digitais apenas em março de 2026.
O cenário acende um alerta e já vem sendo tratado como um problema de saúde pública, uma vez que a prática pode afetar a saúde mental e financeira dos usuários, além de levar à ludopatia — transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para entender melhor o avanço das apostas online e os impactos causados pelo hábito, a reportagem do TVSD Notícias conversou com a psicóloga especialista em ressignificação de traumas, Grisiele Silva, que atua no Espaço Beija-Flor, em Goiânia.
De acordo com a profissional, uma das principais explicações para o crescimento das apostas virtuais é justamente a facilidade de acesso, já que atualmente é possível apostar diretamente pelo celular.
“O celular transformou as apostas em algo disponível o tempo todo, na palma da mão e a qualquer hora do dia. Isso muda completamente a relação da pessoa com o jogo. Antes, existia um deslocamento físico, um limite concreto. Hoje, basta um momento de ansiedade, frustração, solidão ou impulsividade para acessar uma plataforma em segundos”, destacou.

A psicóloga avalia que os aparelhos criam uma falsa sensação de privacidade e controle. Em muitos casos, pessoas que apostam estão sozinhas ou escondidas e aproveitam momentos de vulnerabilidade emocional para utilizar as plataformas.
Segundo ela, a prática deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a afetar o sono, a produtividade, as relações familiares, a autoestima e a saúde mental.
“Do ponto de vista emocional e psicológico, essa facilidade favorece comportamentos compulsivos porque o cérebro passa a buscar recompensas imediatas de forma contínua. As bets utilizam estímulos rápidos, notificações, sensação de urgência e promessas de ganho que ativam circuitos ligados ao prazer e à expectativa de recompensa, muito semelhantes aos observados em outros comportamentos aditivos”, explica.
Sinais de alerta
De acordo com Grisiele, os sinais da dependência costumam aparecer de forma silenciosa. Entre eles estão a necessidade de apostar com frequência cada vez maior, a dificuldade de interromper o comportamento, a irritação ou ansiedade quando a pessoa não consegue jogar e a tentativa constante de recuperar perdas financeiras por meio de novas apostas.
Além disso, também são comuns mudanças emocionais, como oscilações de humor, impulsividade, isolamento, angústia, culpa, vergonha e aumento da ansiedade.
A psicóloga destaca que a situação se torna ainda mais grave quando o jogo deixa de ser encarado como entretenimento e passa a funcionar como uma fuga emocional.
“Muitas vezes, a pessoa acredita que está apenas ‘se distraindo’ ou que conseguirá parar quando quiser, mas alguns comportamentos começam a indicar perda de controle. Estamos diante de um fenômeno que mistura tecnologia, vulnerabilidade emocional e hiperestimulação constante. Por isso, discutir apostas online hoje também é discutir saúde emocional e saúde pública”, afirma.
A prática ainda gera um ciclo vicioso: quanto mais a pessoa perde, maior se torna a necessidade de apostar novamente na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, o que contribui para a perda de controle.
“Esse ciclo cria uma armadilha psicológica muito intensa. A pessoa perde, sente frustração e culpa, aposta novamente tentando reparar o prejuízo, sofre novas perdas e volta a jogar na esperança de compensar o dano anterior. É um movimento que alimenta a dependência e aumenta progressivamente o sofrimento emocional”, ressalta.
A profissional enfatiza que a busca por ajuda é fundamental e deve ser incentivada desde os primeiros sinais de prejuízos emocionais, financeiros, familiares e sociais.
Segundo a psicóloga, a abordagem deve acontecer sem julgamentos ou ataques.
“Um ponto importante é que familiares e amigos não precisam esperar o ‘fundo do poço’ para incentivar a busca por ajuda. Quanto mais cedo houver acolhimento e intervenção, maiores são as chances de recuperação e de reconstrução emocional. Dependendo da gravidade, o tratamento pode envolver uma atuação multidisciplinar, com psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e participação da família. O suporte familiar, quando acontece de forma acolhedora e sem julgamentos, costuma ser um fator importante na recuperação”, finaliza.