Para algumas famílias, a sala de aula é um lugar de aprendizado. Para Selma Santos Barrozo, de 51 anos, e os pais, Maria da Paz Pereira Santos Barrozo, de 69, e Francisco Nonato Barrozo, de 74, o espaço também representa uma oportunidade de realizar sonhos que ficaram pelo caminho.
Depois de décadas longe dos estudos, os três voltaram a frequentar a mesma instituição de ensino e, atualmente, dividem a sala de aula na Escola Municipal Madre Francisca, na Vila Pedroso, em Goiânia. A família está matriculada na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A decisão de Selma de retomar os estudos aconteceu após um intervalo de 28 anos. Em agosto de 2025, ela foi até a escola para matricular o filho e acabou recebendo um convite para conhecer uma turma da EJA. O que inicialmente seria apenas uma visita se transformou em uma nova etapa da vida.
Desde então, segundo Selma, os estudos já trouxeram mudanças práticas para a rotina dela. Uma delas foi conquistar mais autonomia para realizar atividades que antes dependiam da ajuda de outras pessoas, como ir sozinha a uma instituição financeira.
Além disso, a presença dos pais na mesma sala se tornou um incentivo para que os três continuem frequentando as aulas e não desistam dos objetivos.
“Tem sido muito bom. A gente se incentiva, um ajudando o outro. Às vezes dá aquele certo desconforto de não querer ir para a escola, aí eu ligo ou mando mensagem: ‘Vamos’. Se parar, a gente não chega ao objetivo que a gente quer”, contou.
Selma e o pai estão no último período do EJA e frequentam a mesma turma, com conclusão prevista para 2027. Depois de concluírem essa etapa, estarão aptos a ingressar no ensino superior. Maria da Paz, por sua vez, ainda está na fase de alfabetização.
Para Selma, o retorno à escola também reacendeu um antigo sonho. Ela pretende continuar estudando após concluir o EJA e planeja cursar Direito.
“Se eu tenho um sonho que eu não pude alcançar, então, com o conhecimento, quem sabe mais para frente fazer uma advocacia. No EJA, eu estou vendo essa oportunidade”, afirmou.
A distância também não foi suficiente para impedir a família de seguir com a rotina escolar. Selma mora no mesmo bairro da escola e faz o trajeto diariamente a pé. Já os pais vivem em Senador Canedo, no Setor Oliveira, e precisam utilizar o transporte coletivo para chegar à unidade.
Aos 74 anos, Francisco encara o retorno à sala de aula com alegria, principalmente pela possibilidade de compartilhar a experiência com a esposa e a filha. Para ele, os resultados também aparecem no aprendizado.
“O EJA está me ajudando muito. Até minha letra, que estava um pouco atrasada, melhorou bastante. Eu estou gostando”, contou.
Maria da Paz também encontrou na escola um ambiente de acolhimento. Segundo ela, a convivência com professores e colegas faz com que todos se sintam parte de uma mesma família.
“O que eu mais gosto é quando a professora passa o dever e a gente fica fazendo. Eu gosto também na hora do jantar”, disse.
Para a coordenadora pedagógica da unidade, Tanildes Barnabé da Silva Costa, a presença dos três familiares na mesma turma tem fortalecido os vínculos entre os estudantes e servido de motivação para outros alunos.
“Nunca é tarde para voltar a estudar. A idade não impede ninguém de aprender, de realizar sonhos e escrever uma nova história. A escola está de portas abertas para acolher todos que desejam recomeçar”, afirmou.