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Bipolaridade ou borderline? Entenda por que os transtornos podem ser confundidos

Apesar de apresentarem sintomas semelhantes, condições possuem diferenças importantes no comportamento, na duração das alterações de humor e no tratamento
Bipolaridade ou borderline? Entenda por que os transtornos podem ser confundidos
(Foto: Freepik)

Uma mudança de humor depois de uma discussão. Um período de muita energia que vem do nada. Impulsividade, irritação, intensidade nas relações. Em meio a tantos comportamentos diferentes, é comum que uma pessoa tente encontrar uma explicação para o que está sentindo, principalmente quando essas experiências aparecem de forma tão acessível nas redes sociais. Mas nem toda mudança de humor significa bipolaridade. E nem toda instabilidade emocional é sinal de borderline.

Embora possam apresentar sintomas parecidos, transtorno bipolar e de personalidade borderline são condições diferentes. Uma revisão de estudos publicada em 2026 na revista Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, aponta que a sobreposição de características como impulsividade e instabilidade emocional pode dificultar o diagnóstico e levar a atrasos no tratamento adequado.

Em entrevista ao TVSD Notícias, a psicóloga Mariana Leigue, de Goiânia, explica que uma das principais razões para a confusão está justamente nas oscilações de humor presentes nos dois transtornos.

No borderline, as alterações emocionais costumam ser mais rápidas e frequentemente aparecem em resposta a situações interpessoais, como conflitos, rejeições ou dificuldades nos relacionamentos. Já no transtorno bipolar, as mudanças acontecem em episódios de mania, hipomania ou depressão, que podem durar dias, semanas ou até meses e não dependem necessariamente de um acontecimento externo.

“A diferença não está apenas na mudança de humor. Precisamos observar a duração, o padrão, a intensidade, o sono, a energia, o comportamento, os relacionamentos e como essa pessoa funciona ao longo da vida.” explica Thaynara Messias Silva, psicóloga clínica e especialista em transtornos do humor.

(Foto: Thaynara Messias Silva/ Arquivo pessoal)

Entre os sinais que podem aparecer durante episódios de mania ou hipomania estão redução da necessidade de sono, aumento de energia, aceleração dos pensamentos, fala mais intensa, aumento da atividade e comportamentos impulsivos. Já no borderline, podem estar presentes medo intenso de abandono, sensação de vazio, dificuldade na regulação das emoções, impulsividade e instabilidade nos relacionamentos.

Diagnóstico errado pode atrasar tratamento

A diferença também aparece na forma de tratamento. No transtorno bipolar, o acompanhamento médico e o tratamento com o uso de medicamentos têm papel importante na estabilização do humor e na prevenção de novos episódios, enquanto a psicoterapia também auxilia no controle dos sintomas e na identificação de sinais de recaída.

No transtorno de personalidade borderline, a psicoterapia estruturada ocupa um papel central. Entre as abordagens utilizadas está a Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, que trabalha habilidades como regulação emocional, tolerância ao mal-estar e relacionamento interpessoal.

Por isso, um diagnóstico equivocado pode fazer com que a pessoa passe meses ou até mais tempo em um tratamento que não atende às principais necessidades daquele quadro. Além do atraso na condução adequada, isso pode gerar frustração, desgaste emocional e impactos nos relacionamentos, no trabalho e na qualidade de vida.

“Então vai trazer um atraso no tratamento, vai trazer um risco maior de crises. Com tudo isso, vai trazer um impacto emocional e social muito grande.” afirma Mariana Leigue, psicóloga.

(Foto: Mariana Leigue/ Arquivo pessoal)

A revisão científica também aponta que os dois transtornos podem coexistir. Por isso, receber um diagnóstico de uma condição não significa, necessariamente, excluir a possibilidade da outra.

Redes sociais e o autodiagnóstico

Se por um lado a internet ajudou a ampliar as conversas sobre saúde mental, por outro, o excesso de conteúdos simplificados pode fazer com que sintomas isolados sejam confundidos com diagnósticos.

“As pessoas leem ali alguns sintomas, se identificam com eles e já passam a acreditar que têm aquele transtorno, e por vezes passam a performar aquilo, a acreditar mesmo que têm.” destaca Mariana Leigue.

Thaynara explica que frases como “se você muda muito de humor, é bipolar” ou “se tem medo de perder alguém, é borderline” reduzem condições complexas a listas de características. A identificação com um conteúdo pode ser o primeiro passo para alguém perceber que precisa de ajuda, mas não substitui uma avaliação profissional.

Mariana também chama atenção para a chamada “cultura de diagnóstico” nas redes sociais, em que pessoas reconhecem alguns sintomas em si mesmas e passam a acreditar que possuem determinado transtorno. Segundo ela, a romantização de características associadas ao borderline e à bipolaridade também pode contribuir para esse processo.

Por isso, diante de dúvidas sobre saúde mental, a orientação das profissionais é buscar avaliação qualificada. O diagnóstico deve considerar a história clínica, a duração e o padrão dos sintomas e o funcionamento da pessoa ao longo do tempo e não apenas um comportamento isolado.

Mais do que colocar um nome no que alguém sente, o diagnóstico correto serve para indicar o caminho do tratamento.

“Receber um diagnóstico não significa receber uma sentença. Um diagnóstico adequado não deve aprisionar uma pessoa em um rótulo. Ele deve funcionar como um mapa para ajudar a compreender o que está acontecendo e direcionar para o tratamento mais adequado.” afirma Thaynara, especialista em transtornos do humor.

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